Um dos efeitos mais temidos do aquecimento global já está se manifestando -e muito mais dramaticamente do que os cientistas imaginavam. Um estudo publicado hoje sugere que o oceano Austral, que circunda a Antártida, perdeu parte de sua capacidade de "seqüestrar" o gás carbônico emitido por atividades humanas. Isso pode fazer com que a temperatura da Terra suba ainda mais, e mais rápido.Medições feitas em 11 estações meteorológicas entre 1981 e 2004 mostram que os mares austrais estão absorvendo 80 milhões de toneladas de carbono anuais a menos do que deveriam. Isso é mais do que o Brasil emite em um ano, se for excluído o desmatamento."A capacidade de absorção do oceano Austral está enfraquecendo 10% por década", disse à Folha Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia (Reino Unido). "Para nós é uma surpresa. Há dois anos ninguém esperava que isso pudesse acontecer." A oceanógrafa canadense é a autora principal do estudo, que sai hoje na edição on-line da revista "Science" (www.sciencexpress.org).Esse enfraquecimento é grave porque o oceano Austral é um dos principais escoadouros globais do gás carbônico (CO2), o principal causador do efeito estufa. "Ele absorve 15% do nosso gás carbônico", afirma Le Quéré. Essa absorção ocorre porque as águas antárticas são riquíssimas em micróbios que fazem fotossíntese, retirando o carbono da atmosfera.Os ventos fortes que sopram na região e as correntes marítimas locais se encarregam de fazer com que esse carbono migre até as profundezas do oceano, onde ele fica armazenado.É aí que entra o efeito perverso do aquecimento global. A elevação nas temperaturas, somada ao buraco na camada de ozônio, está tornando os ventos na Antártida ainda mais fortes e perversos. Isso transforma o oceano Austral numa espécie de liquidificador, levando tudo o que está no fundo -no caso, o carbono- para cima e saturando a superfície.Le Quéré diz não poder prever agora o quanto esse fenômeno afetará a temperatura da Terra no futuro. Mas avisa: "É provável que os ventos continuem aumentando nos próximos 25 anos, pelo menos".




